domingo, 23 de dezembro de 2007

Predomínio do Sentido Interior

Mesmo que ainda me empregue nenhuma responsabiliade sobre a frequência de atualizações minhas, este espaço foi, por este ano, usado com muito cuidado e carinho. Não tenho dúvidas que nos últimos deixei de estar presente como gostaria. Mas isso vale um pouco para tudo: Minha casa, minha familia, meus amigos...

Então, despretenciosamente abro meu e-mail a empresa - aqueles onde chovem cobranças, prazos e as boas notícias tardam - e, entre os bons intencionados cartões de Natal diversos, constava um em especial. Um de um dos Diretores de minha empresa como um texto... Não vou, agora, dizer o autor. Tenho por mim que aqui, nesta linha de cima, algumas das pessoas que mais frequentam este espaço já deram o nome.

O que me impressionaou foi o mesmo de outras situações, parecidas com esta: Eu diversifico, até Dostoievski tenho me arriscado, mas as mensagens de maior valor são frequentemente assinadas pela mesma pessoa. Então, fecho esta postagem com um esclarecimento - breve, porém suficiente - sobre minhas ausências, e com mais uma afirmação de minha admiração e indentificação particular como este que assina o texto abaixo.

...
Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas. Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo.

A poesia da terra nunca morre. Podemos dizer que as eras passadas foram mais poéticas, mas não podemos dizer (...)

A poesia encontra-se em todas as coisas - na terra e no mar, no lago e na margem do rio. Encontra-se também na cidade - não o neguemos - é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto, comum, ridículo, de um operário, que do outro lado da rua está pintando a tabuleta de um açougue.

Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de modo diferente de outros homens. Há para mim - havia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um significado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo, nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo. É que a poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a tomar plena consciência de sua queda, atônito diante das coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e aquelas condições, mas de nada mais se recordando.

Fernando Pessoa em "O Eu Profundo" (circa 1910).

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Estou Cansado

Coisa de Pessoa. Sempre que me aventuro a descobrir poesias novas, fico na dúvida entre Pessoa e algum outro. Às vezes é Pessoa contra Pessoa; Alberto Caeeiro contra Álvaro, contra Ricardo... Ele geralmente ganha, ou se não ganha já fica engatilhado para a próxima.
Esta poesia que trago não teve concorrentes. Eu a procurarva e, então, a encontrei. Não fiquei surpreso com autoria. Boa leitura!

...
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Soneto

Dei-me discutindo com uma boa e letrata amiga sobre composições de alguns sonetos os quais eu mesmo assinava autoria. Sei que os sonetos foram para mim os primeiros contatos com a poesia, mais precisamente os sonetos de Vinícius; Alguns ainda lembro de cor... De qualquer forma, a questão que levantamos não referia-se ao conteúdo mas, sim, a estrutura de um soneto! Vi que, muitas vezes (a maioria) eu pecava em sílabas a mais ou a menos; Errava também nas rimas as quais não seguiam a arquitetura proposta, entre outras coisas. A questão é que encontrei regras (no número de sílabas, número de linhas, nas estrófes, nas rimas) e, depois disso, passei tirar a prova de alguns sonetos (ver se os caras conheciam esta estrutura): A maioria correspondia. Camões, impecável; Vinícius, Chico Buarque (Soneto), Ariano Suassuna... Todos eles. E, hoje, encontrei mais um. Soneto de conteúdo nenhum, mas rigorosamente dentro da arquitetura de um legítimo Soneto. Boa leitura!
...

Penicilina puma de casapopéia
Que vais peniça cataramascuma
Se parte carmo tu que esperepéia
Já crima volta pinda cataruma.

Estando instinto catalomascoso
sem ter mavorte fide lastimina
és todavia piso de horroroso
e eu reclamo - Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, morre peridimaco
martume ezole, ezole martumar
que tua para enfim é mesmo um taco.

e se rabela capa de casar
estrumenente siba postguerra
enfim irá, enfim irá pra serra.

Millôr Fernandes

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Os meus amigos

Há tempos que não atualizo este espaço. Isso não quer dizer, de forma alguma, que não tenho passado por aqui. Estou sempre por aqui, lendo as mensagens, respondendo aos e-mails e tudo mais. Infelizmente, deixei de trazer para cá (ao menos por estes tempos) os últimos textos que recebi; - Inclusive agradecimento especial a quem tem me enviado - E como medida permanente (..até porque eu não estou nem aí para as provisórias), trago um texto especial que me chegou às mãos pela pessoa mais especial que um dia pode existir para mim: minha mãe.
O texto é assinado por Oscar Wilde. Normalmente, em casos como este, eu me proponho a investigar para conferir o crédito do texto. Mas gostei tanto, me fez tão sentido, que tenho medo de encontrar um autor que eu desconheça e perca um pouco do que há de credibilidade em um autor como Oscar. Assim, não trago assinatura, só o conteúdo.
Boa leitura!
...
Escolho meus amigos não pela pele ou outro
aspecto qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e
tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus
de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não
quero resposta, quero eu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e
agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco. Escolho
meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o
colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer
junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios,
daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam!
Para
que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não
esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos,
bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é
uma ilusão imbecil e estéril.

sábado, 22 de setembro de 2007

:: Literatura Privada

Os cabelos que guarda para ti confrontam
com meus dedos.
A minha mão que sai do meu corpo, pertence já não a mim e,
sim, aos seus fios escuros que te protegem do sol e da calvice.

Sabes que houve demasiados confrontos entre a existência e alma, a alma... Ambos conhecem-se apenas pouco, todavia acredite que não são agressões reprimidas de uma vida real, mas carinhos largos que penteiam seus cabelos, sua alma, sua
existência...

Peço que não se ponha a amuar-se contra meus dedos dedicados,
por fim, que tocam seu couro e fecham os olhos que tenho em troca de uma suposta troca de brandos sinceros e, por então, encaminhe esclarecimentos, não ao couro, mas à alma que te sustenta.


Proferi alguns dos advérbios que sei confiante particularmente na clausura de minhas idéias longas, consequência da inocência empírica que mantenho por laser; E, assim, escrevo poesias despretensiosas cuja razão se aproxima somente da prosódia - a qual investigo e tantas vezes erro - esqueço, portanto, as conseqüências humanas de uma literatura privada, mas que
sei disso?

Permaneço, então, alternando meus movimentos em longos caminhos com os braços que sustentam a existência de seu corpo e persisto com alguns dedos da mão mais próxima, a outra repousa; Prossigo em afáveis contatos do corpo que tenho contra os fios que nasceram sob a riqueza de sua excelência. São eles que constroem nós variáveis e desafiam-me a soltá-los ou a discutí-los e, assim, apenas desisto se lhe trago alguma dor.

Luiz Felipe Angulo Filho

domingo, 26 de agosto de 2007

Os poemas

No princípio da gestação deste blog, eu reforçava contundentemente que tratava-se de um projeto sem muita exigência (ou nenhuma) ao que se refere às atualizações. Evidente que ao passo que desenvolvo este canal e, tive esta experiência, dedico-me à regularidade, ganho em número de acessos, e-mails e comentários; No entanto, o objetivo não é este e, sim, manter o compromisso com o conteúdo.
Assim, retomo a já pretendida sequência de Quintana, interrompida por forças maiores do que as teclas de meu computador. Boa leitura!
...

"Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti..."

Mário Quintana

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

"Aos mestres com carinho"

Hà aproximadamente dois anos, tive o privilégio memorável de presenciar um casamento especial: O de meus avós. Depois de 50 anos de casamento, a familia - e isso é muito particular - optou por organizar uma nova festa e renovar os votos eternos de amor. Mais do que isso, ainda tive a oportunidade de poder fazer um pequeno discurso na cerimônia, coberto de emoção e linhas escritas por mim. Levo comigo este sentimento e, agora, divido com todos; Como em muitas outras ocasiões tenho feito por aqui.
...
Aos mestres, com carinho

“De tudo ao meu amor serei atento...” – É disso que falamos: de amor.
Ele doutor, de feições enigmáticas que mascaram a doçura daquele que se dedicou a trazer vidas ao mundo; Um insistente bigode, que resiste aos tempos no teto de uma boca dona de um extenso repertório inofensivo de palavras fortes: Filho, Pai e avô. Dele, ela compartilha sua doçura, a bondade. Em si o amor sobretudo de se fazer mulher, de ser mãe. Cabelos de nuvens e corpo de terra, que sobrevive ao tempo rijo, forte e belo. Eles, um casal. Que se amou indiscriminadamente ao redor do mundo, ao redor da vida. Frondosos e gratuitos, destemidos e maduros, ambos unidos formam, hoje, há meio século, uma única pessoa.

Curioso como o tempestivo avançar dos anos conseguiu sustentar pessoas que de semelhante guardam as diferenças. E falo de todos nós, por todos nós, que crescemos ao redor destes, por vontade deles. Irmãos, filhos, netos. Bisnetos? ... Ainda não. Permitirmo-nos todos a tentar agradecê-los, afoitos e humildes, pela dádiva de termos nos encontrado sãos nesta terra, nesta vida que recebemos do encontro do coração com a vida real.

Mãos lânguidas, leves, de formas geométricas anguladas, interagem um movimento circular alternando entre o carinho e o tricô. Mãos firmes, cirúrgicas, que investem movimentos na composição de uma pintura; Mãos que sustentaram pesos à medida que acariciaram corpos com a sempre presente ternura. Mãos que se tocam, que conversam, que choram. Mãos que se conhecem, que são as mesmas! Mãos que se juntaram.

Beijemos um ao outro. Sabemos sim que o rastro da fragrância indesejável das más notícias sobrevive, no entanto olhemos por cima. Olhemos pra o alto, onde de longe enxergamos a excelência, o ideal. Somos bons, somos todos do bem. Incluo, então, aqueles que de tão especiais, já vivem próximos ao céu. Vivamos afinal! Aproveitem, ensinem-nos suas experiências; Contem-nos suas histórias, sorriam e saibam, por toda suas vidas, que são por demais amados e não apenas um pelo outro, mas por todos nós que formamos sua família."

Luiz Felipe Angulo Filho
12/11/2004
Em homenagem à minha grande avó Regina, falecida em 10/08/2007 e eterna em meu coração.