terça-feira, 8 de julho de 2008

Literatura Privada

Esta poesia que resgato é uma prosa que me trouxe bastante satisfação pessoal, satisfação literárea talvez e, claro, esclarecimento. Não entendo que cabe, neste espaço, dedicar tempo para detalhar os sentimentos que fizeram-se presentes para a inspiração destas linhas, todavia opto por agradecer às mensagens e carinho que recebi por esta poesia.
...

Os cabelos que guarda para ti confrontam com meus dedos.
A mão que sai do meu corpo, pertence já não a mim e, sim,
aos seus fios escuros que te protegem do sol e da calvice.

Sabes que houve demasiados confrontos entre a existência e alma, a alma...

Ambos conhecem-se apenas pouco, todavia acredite que não são agressões reprimidas de uma vida real, mas carinhos largos que penteiam seus cabelos, sua alma, sua existência...
Peço que não se ponha a amuar-se contra meus dedos dedicados, por fim, que tocam seu couro e fecham os olhos que tenho em troca de uma suposta troca de brandos sinceros e, por então, encaminhe esclarecimentos, não ao couro, mas à alma que te sustenta.

Proferi alguns dos advérbios que sei confiante particularmente na clausura de minhas idéias longas, consequência da inocência empírica que mantenho por laser; E, assim, escrevo poesias despretensiosas cuja razão se aproxima somente da prosódia - a qual investigo e tantas vezes erro - esqueço, portanto, as conseqüências humanas de uma literatura privada, mas que sei disso?

Permaneço, então, alternando meus movimentos em longos caminhos com os braços que sustentam a existência de seu corpo e persisto com alguns dedos da mão mais próxima, a outra repousa... Prossigo em afáveis contatos do corpo que tenho contra os fios que nasceram sobre a riqueza de sua excelência. São eles que constroem nós variáveis e desafiam-me a soltá-los ou a discutí-los e, assim, apenas desisto se lhe trago alguma dor.

Luiz Felipe Angulo Filho

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Ensaio da Sobrevivência

Preciso viver amiúde de mim
Em minha companhia difusa e concluída,
Percorro a liberdade de ser, com o embaraço indissociável da existência

Não concedo mais cedência em apresentar-me integral,
Ou talvez ceda, algum dia que não é hoje, outro dia...
Hoje não: - Hoje poetizo;

Erijo linhas oblíquas de exposição,
Falo sozinho e com o papel e é tudo...
Sem demora posso variar, todavia não obsto pelo que já disse...
Se não sou, é o que fui - lídimo, e basta.

Míngua, ainda, a preponderância da perenidade da idéia
A variedade de elementos perturba o repouso do juízo,
Enleio-me com a mesma freqüência que faço uso dos pronomes e de auxílio

Preciso, então, permanecer
Pois enquanto a solidão permite-me a opção da companhia,
A companhia censura-me a liberdade basilar de estar só.


Luiz Felipe Angulo Filho
Brasília, Junho de 2008

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Séquito

Ah... Minha inspiração dissimulada,
Sinto enorme euforia em dividir com minhas esferográficas as angústias que tive
E meu estro baseia-se em não estar, ausenta-se, deixa-me só como tantos e tudo
Eis que as linhas saem-me de improviso e trazem eventuais inconsistências,
Tal como a vida que tenho, instável contudo aprazível
Uma bruma bordeja os sentimentos do mundo,
Obscurece, inibe
Não creio na persistência, pois sim nas mágoas
Desconheço maior oferta do que a madureza,
Não reconheço maior expediente do que o tempo...

Ah... o tempo, o tempo...
Talvez ele me reúna a inspiração que me foge,
Enquanto isso, abjuro-me na solidão que o dia me trás,
Na companhia, opto pela leitura ou, porventura, convenço-me a ouvir
Mesmo que a mim mesmo, mesmo que as mesmas vozes, mesmo que ao silêncio

Ah... o silêncio
Estado absoluto de excetuar os ruídos,
Muito mais que a ausência do barulho, o preterido silêncio
Busca insólita e incomum, clandestino pelo imediato
E, assim, enquanto creio em sua expectativa,
Usufruo-me do bulício com a candura que me cabe

Porquanto veto-o (o silêncio) e o aguardo enfermo.

Luiz Felipe Angulo Filho
Brasília, Junho de 2008

sábado, 21 de junho de 2008

Grito de Alerta

- Por mais que em algum momento eu tente engatar alguma sequência definida de poemas, sonetos - ou que for - como anunciei há pouco, foi inevitável a mudança. A definição se dá com o fato consumado, quaisquer eventuais ajustes devem, sim, serem trazidos em pról da coerência, da qualidade e, por fim, deste processo infindo de amadurecimento. Estas linhas abaixo, de Gonzaguinha, não são as minhas como havia dito que faria, mas sinto-me razoávelmente seguro em tê-las como minhas palavras.

"Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça
Me bota na boca
Um gosto amargo de fel...

Depois
Vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar
Um bocado de mel...

Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo
Reflito e estendo a mão
E assim nossa vida
É um rio secando
As pedras cortando
E eu vou perguntando:
Até quando?...

São tantas coisinhas miúdas
Roendo, comendo
Arrasando aos poucos
Com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo
De gritos e gestos
Num jogo de culpa
Que faz tanto mal...

Não quero a razão
Pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais
Prá engolir...

Veja bem!
Nosso caso
É uma porta entreaberta
E eu busquei
A palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta

Veja bem!
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida dá gente
Gritando que não..."

Gonzaguinha

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Prosa de um bom novo dia

Ouço o cheiro que esta fineza alcança, ao brilho eterno opcional dos dias
de poesia: Se quero faço prosa, se não quero covardia.
Não rimo mais minhas palavras pobres. Fui mesmo de prosa, abandonado da poesia. Mas esfrio-me de angústia às forças de linhas novas, em busca de gratidão ao meu novo dia. E, assim, sem querer as rimas se fazem, se encontram e atraem os olhos da leitura; Quero pensar que da vista faço o gosto, o sentimento e, alguma, literatura.
Entrego ao tempo que foi também os nãos que minha boca serviu.
Sou muito assim, meio Pastor de causas que compro, sincero e fiél. Se vou de
prosa, não faço acordo com rima e deixo de contar as sílabas que meus
dedos produzem. Preocupo-me agora com algum conteúdo, aproximar minha prosódia ao bom gosto e evitar de negar o que posso consentir.
Ah... este monte de gente que se mexe enquanto proseio. São o mote de meus sentimentos. Tenho que alguns sequer sentiram o cheiro do dia, que pena... Faço reforço à opção que refiro-me em princípio, a opção de optar. Podes abjurar os tempos que se fazem nossos enquanto pisamos o chão, fazes-te um próprio objeto animado com a vantagem que morre um dia, a coisa persiste.
Bom dia o de hoje para prosear.
Acordei e continuo vivo, que alegria. São tantos os motivos que tenho a
agradecer que medro por não conseguir fazer as outras coisas que tenho. Não
posso fazer um ou outro, devo os dois. Por este caminho, aproveito a minha prosa para esconder ambas as atividades que devo: Em uma frase agradeço; Noutra
admiro.
Tenho muita aflição por esta gente toda que anda sozinha. Podem
esbarrar em um objeto qualquer e fazerem morrer aquilo que agradece por tudo
mais que o agressor! Mesmo que os pedaços persistam, talvez já esteja bom.
Estimo, todavia, aqueles outros que choram de alegria por estarem, ainda, contra
o vento dando licença aos sentidos.
Quantos cortes de cabelo existem nestas cabeças? Já são de cores diferentes e de textura singular, uns parecem-se um pouco com outro, mas às vezes nem notam. Não sei que faço com estes todos, prefiro o dia que me mantém vivo e escrevendo. Prefiro o dia, ou a noite, aos donos destas cabeças de cabelos os mesmos. Guardo uma admiração secreta por estes, não posso contar o que, no entanto tenho por cada um uma avaliação completa de gênero, espécie e opção sexual. Que faço, se nem consigo manter a promessa de não usar o não? Já são vários nestas mesmas linhas, que já extrapolam o limite da compreensão. Portanto encerro, para evitar de fazer
o que não quero e volto ao meu ofício de continuar minha admiração.

Luiz Felipe Angulo Filho

domingo, 23 de dezembro de 2007

Predomínio do Sentido Interior

Mesmo que ainda me empregue nenhuma responsabiliade sobre a frequência de atualizações minhas, este espaço foi, por este ano, usado com muito cuidado e carinho. Não tenho dúvidas que nos últimos deixei de estar presente como gostaria. Mas isso vale um pouco para tudo: Minha casa, minha familia, meus amigos...

Então, despretenciosamente abro meu e-mail a empresa - aqueles onde chovem cobranças, prazos e as boas notícias tardam - e, entre os bons intencionados cartões de Natal diversos, constava um em especial. Um de um dos Diretores de minha empresa como um texto... Não vou, agora, dizer o autor. Tenho por mim que aqui, nesta linha de cima, algumas das pessoas que mais frequentam este espaço já deram o nome.

O que me impressionaou foi o mesmo de outras situações, parecidas com esta: Eu diversifico, até Dostoievski tenho me arriscado, mas as mensagens de maior valor são frequentemente assinadas pela mesma pessoa. Então, fecho esta postagem com um esclarecimento - breve, porém suficiente - sobre minhas ausências, e com mais uma afirmação de minha admiração e indentificação particular como este que assina o texto abaixo.

...
Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas. Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo.

A poesia da terra nunca morre. Podemos dizer que as eras passadas foram mais poéticas, mas não podemos dizer (...)

A poesia encontra-se em todas as coisas - na terra e no mar, no lago e na margem do rio. Encontra-se também na cidade - não o neguemos - é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto, comum, ridículo, de um operário, que do outro lado da rua está pintando a tabuleta de um açougue.

Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de modo diferente de outros homens. Há para mim - havia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um significado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo, nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo. É que a poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a tomar plena consciência de sua queda, atônito diante das coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e aquelas condições, mas de nada mais se recordando.

Fernando Pessoa em "O Eu Profundo" (circa 1910).

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Estou Cansado

Coisa de Pessoa. Sempre que me aventuro a descobrir poesias novas, fico na dúvida entre Pessoa e algum outro. Às vezes é Pessoa contra Pessoa; Alberto Caeeiro contra Álvaro, contra Ricardo... Ele geralmente ganha, ou se não ganha já fica engatilhado para a próxima.
Esta poesia que trago não teve concorrentes. Eu a procurarva e, então, a encontrei. Não fiquei surpreso com autoria. Boa leitura!

...
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos